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domingo, 13 de setembro de 2015

Só de sacanagem - Elisa Lucinda

SÓ DE SACANAGEM
Elisa Lucinda


Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo
duramente para educar os meninos mais pobres que eu,
para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus
pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e
eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança
vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o
aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus
brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao
conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e
dos justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva
o lápis do coleguinha",
" Esse apontador não é seu, minha filhinha".
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido
que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca
tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica
ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao
culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do
meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem!
Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo
o mundo rouba" e eu vou dizer: Não importa, será esse
o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu
irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a
quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o
escambau.
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde
o primeiro homem que veio de Portugal".
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.
Eu repito, ouviram? IMORTAL!
Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente
quiser, vai dá para mudar o final!


Ciclo da Vida


Já falamos anteriormente sobre o ciclo da vida – nascer, crescer, morrer. Como disse o Pof. Leandro Karnal (assistam suas palestras no youtube), temer a morte é como intimidar-se com o pôr-do-sol. A vida caminha para a morte, assim como o dia caminha para a noite. Tudo que começa, acaba, tudo é transitório... Nem as histórias mitológicas pregam felicidade a um ser que não teve o merecimento da morte física.

Então porque sofremos diante da morte ou de sua proximidade, se ela é a esperada realidade da vida? A maior causa do sofrimento é entender os fatos da vida como eles realmente são e nos deixar conduzir pelas possibilidades que temos. Trazendo uma outra referência, “a ignorância é a maior causa de sofrimento que impomos a nós e a outros.” Ignorância no sentido de não conhecer, de não saber.

Se é assim, o método mais eficaz de combater o sofrimento, ou a ignorância, é aumentar o conhecimento sobre nós e sobre o assunto que nos impossibilita acessar a alegria, ou o não-sofrimento. “O sofrimento não é da alma... é do ego”. O Ego é aquele que fala quando dizemos eu, meu, sou. Quando nos referimos a nossa pessoa. Ele é o executor do que pensamos. E ele, cá para nós, é um trapaceiro, porque se tem o poder de ser o executor do nosso pensamento, ele executa também as mentiras que pensamos sobre nós mesmos, ou que nos fazem acreditar sobre nós. Não por maldade, mas por máscaras ou roupagens que colocamos como proteção a nós mesmos, ao nosso sistema de defesa interna. Precisamos destas defesas porque não conhecemos os recursos que temos para agir. Estamos, então, reféns de nossa ignorância. Apegados a uma caixa preta de pensamentos passados. E aí vivemos a dor e o sofrimento. Mas, se conseguirmos olhar para dentro, dialogar com o sofrimento que vivem em nós, poderemos entender porque ele está ali. Do que ele quer nos proteger, de qual emoção não queremos fazer contato e porquê. A que crença estamos apegados.

É uma tarefa delicada, essa, de buscar a verdade dentro de nós. A de mostrar ao Ego, que não somos nosso sofrimento. Que somos maior do que ele. Que não há limite para o que podemos ser. Que a dor também é transitória e vai passar. Que não precisamos de alimentá-lo, reagindo ao outro com raiva, com ansiedade, com tristeza, com depressão, perpetuando ilusões. Olhe para o sofrimento com gratidão, escute-o. Pergunte-se a que conceito particular você está apegado. Entenda que esse pensamento está protegido pelo sofrimento, não é a realidade. É uma ilusão. Aproxime-se do medo, da tristeza, da raiva e entenda do que ela quer te falar. Procure a verdade de sua emoção. Ela sim, ampliará a sua janela de conhecimento, te fará mais forte, mais responsável por si, aumentará sua capacidade de ver as possibilidades que a vida traz para o presente.

Buscar o autoconhecimento é como andar de bicicleta... nossa direção vai para onde nosso olhar nos levar. Se direcionarmos nosso olhar para viver uma situação difícil, o Ego, o executor, nos trará conflitos e cansaços. Se preferirmos olhar para mesma situação com amorosidade, aceitação e atenção, também o Ego nos trará sabedoria para não nos intimidar frente as dificuldades. Nós não nos abandonaremos para seguir o sofrimento. Estaremos juntos de nossa força interior. “Ei, dor, eu não te escuto mais. Você, não me leva a nada. E se quiser saber para onde vou, para onde houver sol, é para lá que vou “(Jota Quest). Busque a luz do conhecimento, da sabedoria interior. Deixe nascer a força e a confiança em si. Abra-se para a própria cura. Ponha o sol em seu coração... É ali que você deve estar!

Referência: O livro das emoções

Ana Cristina Curi
Psicóloga.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Todo filho é pai da morte de seu pai

Todo filho é pai da morte de seu pai (Fabrício Carpinejar)

Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:
Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

Fonte: http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/fabricio-carpinejar-todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/

domingo, 25 de maio de 2014

O tempo e as jabuticabas - Rubem Alves

O TEMPO E AS JABUTICABAS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver 
daqui para frente do quevivi até agora. Sinto-me como aquela 
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela 
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir 
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos 
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem 
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.  
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, 
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
 de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo 
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas 
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente 
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não 
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, 
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse

amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena.


Rubem Alves


domingo, 6 de abril de 2014

Como fazer uma mulher feliz

É assim?
"Como fazer um HOMEM feliz ???
É necessário apenas:
1) Sexo;
2) Comida;
3) Cerveja;
4) Futebol.
Como fazer uma MULHER feliz ???
A história começa assim…
No mais alto pico do Tibet vive o mais sábio homem do mundo.
Certa vez um rapaz foi à sua procura e perguntou-lhe:
- Mestre dos mestres! Qual o caminho mais curto e seguro para o coração de uma mulher?
O mestre respondeu-lhe:
- Não há caminho seguro para o coração de uma mulher, filho. Só trilhas à beira de penhascos e caminhos sem mapas, cheios de pedras e serpentes venenosas...
- Mas, então, mestre… O que devo fazer para conquistar o coração da minha amada?
Então lhe disse o grande guru:
- Fazer uma mulher feliz é fácil.
- Só é necessário ser:
1) Amigo
2) Companheiro
3) Amante
4) Irmão
5) Pai
6) Chefe
7) Educador
Cozinheiro
9) Mecânico
10) Encanador
11) Decorador de Interiores
12) Estilista
13) Eletricista
14) Sexólogo
15) Ginecologista
16) Psicólogo
17) Psiquiatra
18) Terapeuta
19) Audaz
20) Simpático
21) Esportista
22) Carinhoso
23) Atento
24) Cavalheiro
25) Inteligente
26) Imaginativo
27) Criativo
28) Doce
29) Forte
30) Compreensivo
31) Tolerante
32) Prudente
33) Ambicioso
34) Capaz
35) Valente
36) Decidido
37) Confiável
38) Respeitador
39) Apaixonado
40) E, de preferência, RICO!!!
- Não cuspa no chão;
- Não coce o saco na frente dela;
- Não arrote alto. Aliás, não arrote;
- Dê flores e muitos.. Muitos presentes;
- Corte e limpe as unhas.. Não coma as unhas;
- Não peide sob o cobertor. Aliás, não peide.
- Levante a tampa do vaso antes de mijar.
- Deixe ela ter ciúme de você, ela pode;
- Use desodorante (que preste);
- Dê descarga depois de sair da privada;
- Não fale palavrão;
- Não seja engraçadinho com os outros;
- Não fale mal da mãe dela. Aliás, ame a mãe dela;
- Não tenha ciúme dela;
- Não fique barrigudo. Aliás, não engorde;
- Não demore no banho;
- Não chegue tarde em casa.
- Saia para trabalhar e volte correndo;
- Não beba até tarde com amigos. Aliás, não tenha amigos;
- Não seja pão-duro. Use pelo menos 2 cartões de crédito;
- Não diga que mulher não sabe dirigir;
- Não olhe para outras mulheres…. Aliás, não existem outras mulheres;
- Aprenda a cozinhar;
- Diga ‘eu te amo’ pelo menos 05 vezes por dia;
- Lave a louça;
- Ligue para ela, de qualquer lugar;
- Deixe ela conversar durante horas ao telefone;
- Não ronque;
- Não seja fanático por futebol;
- Faça a barba todos os dias para não arranhá- la;
- Nunca reclame de nada;
- Repare quando ela cortar o cabelo, mesmo que seja apenas as pontinhas, e diga sempre que ficou lindo…
E é muito importante ainda não esquecer as datas do seu: aniversário, noivado, casamento, formatura, menstruação, data do primeiro beijo; aniversário da mãe, tia, irmão ou irmã mais querida; aniversário dos avós, da melhor amiga… E do gato
Infelizmente, o cumprimento de todas estas instruções não garante 100%
a felicidade dela, porque poderia sentir-se presa a uma vida de sufocante perfeição.
- E o mais importante, meu rapaz… Espere… Volte aqui…
NÃO… NÃO PULE… NÃO SE MATEEEEEEEEEEEEE!!!!

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Somos queijo gorgonzola



Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia.


O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique. Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada.


Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola.


Maitê Proença

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Deus hipotético - Luis Fernando Verissimo


Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição.

A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas.

Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão no comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo — o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma — seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição.